Teorias e práticas da Psicologia Social

Psicossocial

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Organizações psicopatas

1 / Maio / 2011 por Augusto Galery

Hoje, propus uma discussão com meus alunos da disciplina Ética e Responsabilidade Social (do curso de pós Psicologia Organizacional e do Trabalho, no Mackenzie) em cima do filme A Corporação (mais especificamente, das partes intituladas “Relatos de Caso”; “Patologia do Comércio” e “Obrigações Monstruosas”).

Nas duas primeiras partes, há um esforço dos realizadores do filme para demonstrar que os comportamentos das corporações se encaixam nas diretrizes diagnósticas de psicopatia propostas pela CID-10.

Na terceira parte, no entanto, o filme demonstra que as pessoas que dirigem essas corporações são tão humanas - preocupadas com o meio ambiente, com os regimes totalitários e com seus filhos - como qualquer outra pessoa.

Minha pergunta para a turma, então, foi a seguinte: como é possível que um grupo de pessoas inseridas na lei social - ou seja, que não são, isoladamente, psicopatas - possam, ao criar as corporações, torná-las psicopatas (no sentido de se achar não-submetidas às leis sociais e à etica)? Será que essas instituições assumem uma personalidade diferente das pessoas que a compõe? Uma espécie de “psiquismo institucional autônomo” de seus membros?

Eu, particularmente, acho difícil acreditar nessa hipótese… Na minha opinião, é necessário lembrar que o homem construiu instituições que lhe servem às necessidades psíquicas e as empresas não fogem a essa regra. Inventamos instituições específicas para lidar com nosso medo do desconhecido (e com nosso sentimento oceânico), como as religiões. Inventamos instituições para dar vazão e, ao mesmo tempo, manter contida nossa barbárie, como os estádios de futebol.

Parece-me que também inventamos uma instituição cujo intuito é dar vazão aos impulsos psicopatas que todos temos - é necessário lembrar, dentro da hipótese freudiana, que todas as crianças são perversas, no sentido de não ter a lei introjetada, e que a passagem pelo Édipo não nos faz deixar de ter tais impulsos, mas apenas os coloca sob controle, através de um árduo esforço e bastante sofrimento.

E não é exatamente a pura racionalidade utilitarista, desprovida de emoção, a justificativa usada tanto pelas corporações quanto pelos psicopatas para tomar suas decisões?

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A era das técnicas médicas

3 / Abril / 2011 por Augusto Galery

Faz algum tempo, fiz um post sobre a nova versão do DSM em que falava sobre minha preocupação com a visão predominantemente médica dos fenômenos psi. A redução da subjetividade à atividade dos neurônios - portanto, um fenômeno apenas biológico e, assim, passível de ser “curado” por intervenções da medicina - me assusta.

No artigo que cito naquele post, o interesse da indústria farmacêutica, que quer vender soluções em pílulas, pode ser compreendido como um esforço do capitalismo para lucrar sobre o corpo. Mas tem como impacto a mercantilização de tudo aquilo que é atravessado pela relação médico-paciente.

Um caso relatado na folha essa semana parece-me um bom exemplo do que estou tentando dizer. Um casal, após fazer fertilização em vitro, teve trigêmeos. No entanto, uma das crianças nasceu com insuficiência pulmonar e os pais não tiveram dúvidas: pegaram os filhos sadios e abandonaram o produto com defeito, como faríamos ao comprar lâmpadas num supermercado. Essa não acendeu direito, deixa ela aí e pega só as boas.

A paternidade e a maternidade transformadas em relação de consumo…

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mecanismos de preconceito

3 / Dezembro / 2010 por Augusto Galery

Se pudermos pensar, de maneira simplificada e didática, num metaconceito para entender os mecanismos psíquicos por trás do preconceito, eu chamaria atenção para dois processos:
1) a redução do outro a uma única característica realística. Ora, uma das grandes forças adaptativas do ser humano é sua complexidade. Nesse sentido, não há um sujeito igual ao outro na humanidade. Como processo, o preconceito impede a visão do outro como um todo e essa redução será sentida, pelo outro, como uma violência. É, portanto, uma espécie de “esquartejamento psíquico” do outro a uma única parte de sua realidade (a cor da pele, a religião, a presença de deficiência, a escolha sexual etc.). É esse “esquartejamento psíquico” que impede que o outro seja visto como semelhante e sua função é ser um suporte psíquico ao narcisismo.
2) A generalização idealística do outro ao esteriótipo. A partir do momento em que o indivíduo preconceituoso faz essa redução do outro a um único elemento, ele completa, de forma idealizada - ideologizada -, o outro, utilizando para isso os esteriótipos culturais adquiridos socialmente. É, portanto, uma remontagem do outro mas, dessa vez, sem base sólida na realidade.Chamo a atenção, assim, que sempre que se despreza o todo do outro em virtude de um esteriótipo, não importando se as intenções são agressivas ou condescendentes, estamos no terreno do preconceito.
(agradeço a Eliane Costa e Robson Colósio pela discussão a respeito do conceito)

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Todos loucos…

28 / Julho / 2010 por Augusto Galery

Saiu na folha de hoje (p. C9) uma reportagem sobre a nova versão do DSM (a classificação de doenças mentais da Associação Americana de Psiquiatria, um dos livros mais consultados para se fazer diagnóstico de transtornos mentais). A constatação que traz a reportagem é de que a quantidade de distúrbios acrescentados no manual torna virtualmente impossível a qualquer pessoa não ter um distúrbio. Foram incluídos como distúrbios - a folha cita os exemplos - a birra infantil e a síndrome de risco de psicose.

Os psiquiatras entrevistados afirmam: “isso pode levar à percepção de que todos precisamos de remédios para tratar nossas ‘doenças’ e muitas dessas drogas têm efeitos colaterais desagradáveis ou perigosos”. Bom, para ser sincero, tenho a impressão de que é exatamente essa a razão do aumento constante de comportamentos classificados como distúrbios mentais (como foi o caso do décifit de atenção, citada igualmente pelos psiquiatras entrevistados) : aumentar as vendas da indústria farmacêutica. Não se criam novas soluções para os problemas, mas novos problemas para que se receitem soluções.

O caso me apavora, pois vende a ilusão de que a subjetividade humana pode ser reduzida a uma série de reações químicas em desequilíbrio, que podem ser controladas - e anuladas - por medicações. E essas, muitas vezes, são viciantes, criando um ciclo. O que, aliás, não deve ser uma característica que desagrada os acionistas das empresas de medicamento…

A subjetividade torna-se, dessa forma, alvo - e vítima - do mercado de consumo, tão banalizada quanto a estética, que força a cirurgias e remédios para emagrecer…

Não consegui achar na Folha o link para a notícia, mas ela pode ser lida, em inglês, aqui: http://news.yahoo.com/s/nm/20100727/hl_nm/us_mental (aliás, a notícia da folha é quase que tradução literal desse artigo… só que a notícia brasileira não dá ênfase à venda dos remédios…).

Atualização: Como a vida é bem plural, encontrei um artigo do Henrique P. e Silva com uma impressão bem diferente do novo DSM da que apresentei aqui: http://henrique-analise.blogspot.com/2010/08/loucura-e-o-novo-dsm.html

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Sakineh Mohammadi Ashtiani

13 / Julho / 2010 por Natalia Alves

Acabe com o apedrejamento!

            AVAAZ

 

Semana passada, clamores globais massivos impediram a morte por apedrejamento da iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani. Mas Sakineh ainda pode ser enforcada, e hoje, outras quinze pessoas aguardam execuções por apedrejamento, onde as pessoas são enterradas até o pescoço e grandes pedras são atiradas nas suas cabeças.

A campanha internacional dos filhos de Sakineh mostra que a condenação global funciona. Vamos tornar o apelo dessa família um movimento pelo fim do apedrejamento - assine a petição e envie para as pessoas que você conhece:

http://www.avaaz.org/po/stop_stoning/?cl=657365482&v=6778

 

(A Avaaz é uma rede de campanhas globais de 4,9 milhões de pessoas que se mobiliza para garantir que os valores e visões da sociedade civil global influenciem questões políticas internacionais. (”Avaaz” significa “voz” e “canção” em várias línguas).

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O Homem que encolheu (ou o encontro com as duas faces do capital)

8 / Março / 2010 por Ana Paula

João Augusto, 55 anos, é um bancário que trabalhou num mesmo banco, durante 32 anos. No fim da década de 1990, o banco foi privatizado, mas apesar da crise instalada e das demissões ocorridas logo depois (especialmente dos bancários adoecidos), continuou trabalhando na mesma empresa. Em reunião de integração dos novos funcionários, João era um dos exemplos de competência, organização e dedicação ao trabalho, ou seja “tinha o perfil que a empresa precisava”. Foi, então, que desejou se tornar gerente. Trabalhava 10 horas por dia, fez faculdade e pós-graduação em administração de empresas. Pouca atenção dava aos filhos e a esposa, mas, segundo ele “O dia que virei gerente foi a realização de um sonho…eu explodia de alegria”. Nas festas familiares e nas reuniões sociais enchia o peito para falar do seu trabalho, de sua empresa, das inovações, dos novos produtos. Seus colegas o chamavam de chato, segundo João:”Por que eu só sabia falar do trabalho”.

Anos depois, o banco passou por outro processo de “downsizing”, um período de reajustes e grandes tensões. Foi demitido: “meu mundo caiu”, não sabia como contar para família, chorou e ficou indignado: “só faltavam dois anos para a aposentadoria”. Esteve até no sindicato, pra buscar os poucos direitos. Recorreu no Ministério do Trabalho do “direito do seguro desemprego”, por que as prestações não paravam de chegar: carro, casa, escola dos filhos. Ainda perplexo, organizou um curriculum, fez contatos com outros gerentes de banco e abriu até uma firma própria: “virei pessoa jurídica, um empreendedor”.

Os dias iam se passando e teve que pegar empréstimo, no mesmo banco. Nenhuma solução e João não entendia: “eu era tão competente”. Os meses iam se passando e todos lhe diziam: “Eles só querem jovens”. No desespero foi no INSS e consegui negociar um salário de aposentadoria, disse: “melhor que nada”. Vendeu o carro e aprendeu a andar de ônibus. Colocou os filhos em escola pública e pensava: “Uma vida dedicada ao trabalho e nem pra pagar uma boa educação para os meus filhos eu prestava”. Constantemente irritado, rompeu com o casamento de trinta anos e foi morar com a mãe. De tanto andar atrás de trabalho, qualquer que fosse, aprendeu a parar no bar e beber cachaça: “pra aguentar o tranco”.

Dias atrás começou a sentir dores no peito e, forçado pelos filhos, procurou seu cardiologista de anos, mas o médico não o atendeu, já que não tinha “plano” e indicou o SUS. Depois de muito procurar, foi na tal Unidade de Saúde do bairro. Tomou um gole de cachaça e chegou na fila às 7h, mas só conseguiu marcar o clínico, pro encaminhamento, no fim do mês. Se sentiu humilhado.

No caminho de volta uma notícia estampada no jornal lhe salta os olhos, “seu” banco foi o mais lucrativo de 2005. Foi então que descobriu: “o meu banco não era meu, nunca foi” e encolheu.

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Plataforma ansiogênica

25 / Outubro / 2009 por Augusto Galery

Descobri, no final da semana passada, um conceito da publicidade que me chamou bastante a atenção. Seus impactos na psicologia são bastante claros. Trata-se da teoria da “plataforma ansiogênica” que, como o próprio nome já implica, busca elevar o nível de ansiedade das pessoas para, a seguir, prometer resolver sua ansiedade ao comprar o produto indicado.

Para variar, o que vale aqui é o resultado, a qualquer custo. Não interessa o impacto disso nas pessoas, expostas a uma rotina diária já ansiogênica e estressante. O vídeo abaixo (legendado em português) explica melhor o conceito.

Note-se como o autor da teoria ironiza aqueles que a criticam. Mas, enquanto fazem por aí pesquisas e afirmações sobre o quão “diabólicos” são os jogos de RPG e de computador e os filmes violentos, os publicitários brincam inconsequentemente com nossas emoções.Seria bom se alguém fizesse um estudo que medisse o que acontece ao nível de estresse das pessoas expostas a propagandas que usam a plataforma ansiogênica. Se alguém souber de algo parecido, por favor, me avise.

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A “modernização” do mundo do trabalho

23 / Outubro / 2009 por Ana Paula


Por mais paradoxal que possa parecer, pesquisas atuais têm apontado que o desenvolvimento do progresso técnico, através da informatização, não tem significado, de um modo geral, qualidade de vida para os trabalhadores. Muito pelo contrário, esse desenvolvimento tem sido pautado pelo aumento do desemprego e redução do número de postos de trabalho, por um lado, e intensificação do ritmo de trabalho, por outro, intervindo sobre a saúde dos que trabalham.

Exemplo disso pode ser observado nos casos das LER/DORT (Lesão por Esforço Repetitivo/ Distúrbio Osteomuscular Relacionado ao Trabalho), que são hoje a principal causa de afastamento no trabalho no mundo.

O cumprimento de tarefas repetitivas, com fortes exigências de atenção e sob permanente pressões e tensões faz com que o trabalho automatizado seja penoso e sofrido para aqueles que o executam. Nesse sentido, as formas de produção automatizadas, as exigências e organização do trabalho (divisão do trabalho, conteúdo da tarefa, sistema hierárquico, modalidades de comando, das relações de poder, etc) interferem não somente na fisiologia do corpo do trabalhador, mas também sobre sua saúde mental. Portanto, não são raros, os casos de depressão, transtornos de estresse e ansiedade relacionados ao trabalho na contemporaneidade.

São muitos os efeitos nocivos que a intensificação do trabalho e o prolongamento da jornada de trabalho trazem para a saúde e vida dos trabalhadores. É importante lembrar que geralmente os sintomas do adoecimento pelo trabalho são de evolução insidiosa até serem claramente percebidos pelos próprios trabalhadores ou pela família. Inicialmente, poder-se-ia reconhecer um estágio de mal-estar e de tensão, um desconforto psíquico e emocional, que ainda não pode ser considerado patologia. Identificar precocemente esse estágio significa estar atento aos estados de ansiedade, tensão, fadiga, cansaço, distúrbios do sono e a contaminação involuntária do trabalho no tempo de lazer.

Com o passar dos anos, se não é possível modificar as situações de trabalho adoecedoras, poderão surgir transtornos psiquiátricos, com longos períodos para recuperação. Essas formas de adoecimento reduzem a produtividade, a qualidade do trabalho e aumentam os índices de licenças médicas e absenteísmo. Alem do que, interferem sobremaneira nas relações familiares e afetivas dos trabalhadores, sendo comum a disseminação do sofrimento para além do espaço do trabalho.

As formas de gerenciamento do trabalho na contemporaneidade, tanto na iniciativa privada, quanto no setor público, não têm privilegiado a saúde e qualidade de vida dos trabalhadores. Pelo contrário, muitas delas favorecem a institucionalização de uma violência oculta no trabalho, como já disse o prof. Herval Pina Ribeiro e a profa Margarida Barreto.

A tomada de decisões sobre o trabalho sem a participação dos trabalhadores é uma das formas comuns de gestão do trabalho. Por vezes, encontramos modos de gerenciamento autoritário e antiéticos, nos quais predominam os desmandos, a manipulação do medo e a competitividade.

Nesses casos, temos um terreno propício para a exposição dos trabalhadores a situações humilhantes e constrangedoras, repetitivas e prolongadas durante a jornada de trabalho, caracterizadas como assédio moral no trabalho, que gera uma tensão interpessoal e modos de sofrimento diante da situação.

Concluindo, acreditamos que a democratização das relações de trabalho é o elemento fundamental da discussão, sem a qual propostas de modernização e informatização, serão nomes novos para problemas arcaicos.

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A bailarina e o pai

4 / Setembro / 2009 por Augusto Galery

Hoje, estava escutando “A ciranda da bailarina”, de Chico Buarque, com minha filha, e me dei conta de que a música é um bom exemplo para exemplificar o conceito freudiano de tabu. Explico:

Totem e tabu é um texto bastante complexo de Freud. Muitas vezes, ele é reduzido ao mito do pai da horda primeva, onde os filhos, banidos pelo chefe da horda, se unem numa revolta para matá-lo.

No entanto, essa é apenas a última parte do texto de 1913. Nas partes anteriores, ele tenta entender os mitos ligados aos totens e tabus, num trabalho próximo à antropologia. Em especial, na segunda parte, Freud mostra como os grandes líderes são revestidos, ao mesmo tempo, de grande poder e, por outro lado, de restrições extrema, que por vezes chegam à penúria. O psicanalista relata que, em diversas partes do mundo, os escolhidos para reis ou sacerdotes tentam escapar a todo custo de seu destino, pois sabem que suas vidas, ao assumirem seus postos, serão sujeitas a grandes perdas e a uma constante vigilância.

Freud analisa que tais restrições e condições severas são impostas para que o ser humano comum não se sinta tentado a ocupar esse lugar único e revestido de poderes. Ao meu ver, é como se a perfeição, para ser admitida, tivesse que ter, intrinsecamente a ela, defeitos e punições.

Por isso, a música de Chico me parece um bom exemplo: a bailarina, de tão perfeita, sem perebas ou irmãos zarolhos, também estará restrita às boas maneiras, não terá bigode de groselha, calcinha um pouco velha (aquela que é confortável, afinal), nem o primeiro namorado. Uma vida de perfeição imposta pelo olhar do outro, que ao mesmo tempo que a torna linda de ser vista, faz com que ela perca a naturalidade da vida.

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Privatizando…

3 / Setembro / 2009 por Augusto Galery

E o José Serra, ex-ministro da Saúde, está tentando bravamente privatizar a saúde pública no estado de São Paulo. O projeto, apresentado pelo governador, já foi aprovado pelos deputados.

Pelo projeto, 25% do atendimento dos hospitais públicos será destinado a particulares e pacientes com plano de saúde. O Serra garante que esses 25% não vão fazer falta à população. Como não? Os hospitais vão ser ampliados e ganhar novas vagas? Porque as vagas atuais, até onde se sabe, não estão sobrando… Ou esses particulares e conveniados vão ficar em macas nos corredores, como os usuários do serviço público?

Em defesa do projeto, Serra diz que o dinheiro recebido será usado nos próprios hospitais, para melhorar o serviço. Será tão difícil perceber que, a partir do momento em que os hospitais públicos passarem a receber, migrarão para a lógica capitalista de mercado? E que o pagante e o não-pagante nunca serão vistos como iguais, no atendimento?

Bom, agora é torcer para o Ministério Público conseguir provar que a lei é inconstitucional…

Vi a notícia aqui: http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u618843.shtml

A tempo: Pior é ter que aguentar o governador, em seguida, se declarar “amigo de pobre”, porque diminuiu o juros de empréstimo para pessoas de baixa renda. Do discurso de Serra (publicado na Folha): “Não vou dizer que o governo do Estado é rico, porque não há dinheiro sobrando, mas somos amigos dos pobres. Esse crédito do povo é uma forma de amizade”. Para finalizar, disse que abaixar o juros de 1% ao mês para 0,7% é coisa “de mãe para filho”. Superou o Getúlio: o Serra não é o pai dos pobres, é a mãe. De qualquer forma, eu não sei na família do Serra, mas na minha terra, quem empresta a juros não é mãe, é agiota… Mãe é aquela que ajuda a gente a estudar e conseguir um trabalho digno, que nos deixe livre de fazer empréstimos…

Bom, mas, no fundo, temos que dar graças a Deus! Agora já podemos fazer um empréstimo para conseguir uma vaga e pagar as despesas num hospital público…

A notícia sobre o discurso do Serra: http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u618846.shtml

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Cultura organizacional e conflitos

1 / Setembro / 2009 por Augusto Galery

Para mim, uma das principais atribuições da cultura organizacional é camuflar os conflitos inerentes à idéia de organização, como posta atualmente. Em especial (mas não somente), acredito que a cultura é construída para mascarar 3 formas de conflito:

1. O conflito capital X trabalho: A forma com que os valores da cultura reproduzem a ideologia capitalista serve para “acalmar” os trabalhadores e deixar a propriedade privada inquestionável. Todo o discurso de “vestir a camisa da empresa”, assim como as implantações de 5S e mesmo a divisão de lucros funcionam nesse sentido. O mito da “empresa-família”, preocupada com seu funcionário (mas que pode despedi-lo se ele gastar muito papel ou muita energia…) serve ao mesmo propósito.

2. O conflito indivíduo X grupo: Na atual conjuntura, o indivíduo precisa ser exacerbado, mas é necessário “trabalhar em equipe”. Obviamente, essa equipe precisa ser “racionalizada”, de forma que os laços formados não sejam fortes o suficiente para dar poder ao grupo. O conflito que surge da necessidade de ser indivíduo e equipe ao mesmo tempo - e as formas de lidar com ele - já é colocado nos processos seletivos, onde, para ser o único escolhido para a vaga, você precisa provar que trabalha bem com seus concorrentes, em dinâmicas de cooperação.

3. O conflito inovação X repetição: Ou, como já expunha Freud e explora Enriquez, o conflito entre pulsão de vida e pulsão de morte. O desejo de mudar, sair da rotina, criar é sempre contraposto ao desejo de repetir e de controlar os movimentos e pensamentos. Tal conflito é bem exemplificado pelo homem-boi de Taylor - aquele que pensa pouco, aguenta muito e é  especializado em uma rotina bem determinada e simplificada - em contraposição às experiências de Elton Mayo em Hawthorne, onde se percebe que as melhores funcionárias criavam sobre o seu trabalho e tinham maneiras diferentes de fazer o mesmo processo, mesmo quando este era extremamente simples.

Cabe à cultura, como suporte ideológico de um grupo, criar mitos e valores que dêem sentido a essas posições contrárias ou, na impossibilidade de fazê-lo, tornem sua discussão interditada.

Mais a respeito:

FLEURY, M. T. L; FISCHER, R. M. Cultura e poder nas organizações. São Paulo: Atlas, 1996

LEVY, A. et al. Psicossociologia - Análise social e intervenção. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.

FREUD, S. O mal estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, 2006.

ENRIQUEZ, E. A organização em análise. Petrópolis: Vozes, 1997

ENRIQUEZ, E.  Da horda ao estado. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996.

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Redução de jornada para 40 horas.

2 / Julho / 2009 por Augusto Galery

Uma pequena vitória para os trabalhadores, uma comissão especial da Câmara dos Deputados aprovou uma proposta de emenda constitucional para reduzir a carga horária máxima semanal de trabalho, de 44 para 40 horas. Além disso, propôs o aumento do custo da hora extra - que passa a ser paga pelo menos 75% a mais do que a hora normal, contra os 50% a mais da legislação atual.

É claro, os empresários já começaram a dizer que essa medida aumentará o desemprego. Como são eles quem contratam e demitem, e como costumam pensar que mão de obra é um dos recursos mais baratos disponíveis (veja adendo), pode ser que façam um esforço para que isso aconteça.

Além disso, me parece que, no Brasil, a maior parte das pessoas que trabalha além das 44 horas semanais não recebe horas extras (alguém tem estatísticas mais exatas sobre o assunto?). E, por outro lado, existem diversos acordos coletivos que já estipulam jornadas de 40 horas. Isso significa que o impacto da legislação não vai ser revolucionário…

Mas vamos continuar esperançosos e lutando por uma carga horária de trabalho mais humana, nos moldes das propostas de ócio criativo, de Domenico De Masi…

Adendo: Sempre que alguém vem com o discurso de que a mão de obra é o recurso mais valioso nas empresas, eu pergunto se ele conhece pessoas que foram demitidas por gastar muito papel, ou muita luz… Quase sempre a resposta é “sim”. O que me leva à próxima pergunta: então, o que é mais valioso para empresa: papel ou pessoa? E geralmente recebo, como resposta, um silêncio constrangedor…

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Relacionamento morto

28 / Junho / 2009 por Augusto Galery

K. Marx postulava que o capital busca manter um excedente humano - o exército de reserva - que seria uma certa quantidade de desempregados que pudessem competir com os trabalhadores pelas vagas de trabalho, mantendo, assim, seu baixo valor: com a oferta maior que a demanda, justifica-se baixos salários e formas de exploração baseadas no antigo bordão “se você não quer fazer o que mando, tem quem quer…”.

Uma das formas que o capital tem de manter esse exército é utilizar a tecnologia crescente para substituir o trabalho vivo - aquele realizado pelos seres humanos - pelo trabalho morto - aquele trabalho maquinizado, sem a participação de seres humanos.

Um bom exemplo disso são os atuais serviços telefônicos, como o implantado pela Net para o atendimento de seus clientes. Um sistema automático identifica seu telefone, descobre se há algum problema e uma voz gravada te dá as informações a respeito de sua situação, como por exemplo, dizendo que há problemas técnicos em sua região ou que você não pagou a conta. A gravação, no fim, tenta desestimular você a tentar conversar com uma pessoa, dizendo algo como “nossa central de atendimento não tem nenhuma outra informação, além das que você já ouviu”.

Transforma-se, assim, o relacionamento com os clientes em trabalho morto. Acaba-se com a base da comunicação, que é a reciprocidade, transformando o relacionamento numa via de mão única - já que não há sentido em conversar com a gravação. E, para evitar críticas quanto à ‘frieza’ da gravação, esta vem recheada de vícios de linguagem, como começar as frases com “bom…” ou “agora,…” (por exemplo: “bom, essas são as únicas informações de que dispomos” ou “agora, se você quiser falar com um de nossos atendentes…”).

Só faltou a gravação exagerar no uso dos gerúndios…

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O sujeito neoliberal e o sujeito marxista

18 / Junho / 2009 por Augusto Galery

Uma outra conclusão que venho tirando de minhas conversas com o Fred pode parecer meio óbvia, mas para mim foi bastante esclarecedora. Foi entender a quem os discursos se voltam, no neoliberalismo e no marxismo. O “tu” desses dois discursos é bastante diferente e denotam a concepção de sujeito que os neoliberais e os marxistas adotam, o que explicam, em muito, suas diferenças.

Para o marxismo, o sujeito a quem o discurso se refere é, bastante claramente, o “trabalhador”. Trabalhar é, para esses teóricos, o ato que constitui o ser humano. Para os neoliberais, por outro lado, o sujeito é, acima de tudo, “consumidor”. Entende-se, assim, que o sujeito humano se forma através do consumo, e esta é a principal atividade humana. Tal idéia explica, então, o fato de se buscar a competição como regulação de mercado, pois tal competição abaixaria o preço dos produtos, o que é bom para o consumidor.

Se, para se tornar mais competitivo, é necessário explorar recursos ambientais escassos, empobrecer as atividades laborais e fragmentar (ou extinguir) as relações de trabalho, esses são efeitos colaterais toleráveis, desde que o consumo seja permitido.

É por isso que os neoliberais se espantam, genuinamente, quando algum crítico diz que o neoliberalismo é desumano. No paradigma neoliberal, impossível ser mais humanitário do que incentivar o consumo.

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A direita e a esquerda

15 / Junho / 2009 por Augusto Galery

Esse post e o próximo são resultantes de uma longa e prazeirosa discussão com um bom amigo, o Fred. O centro da discussão é sobre a esquerda e a direita. Meu amigo defende a tese de que não existe mais separação entre a esquerda e a direita, em especial em países como o Brasil, onde os partidos políticos são ideologicamente fracos.

Minha opinião é diferente. Penso que, em termos de marketing político, o discurso se igualou bastante. Mas, a partir do momento em que os políticos são eleitos, as diferenças entre esquerda e direita ficam claras ou, para ser mais exato, entre aqueles que adotam uma visão neo-liberal - e, assim, buscam o Estado mínimo através de privatizações e, para usar a referência do Bresser, colocam a ordem social acima da justiça social - e aqueles que adotam uma visão mais socialista, buscando fortalecer o Estado e dar mais ênfase à justiça e à igualdade social.

Pensanso assim, as diferenças entre os governos dos presidentes FHC e Lula ficam nítidas. Após eleito, a maior preocupação de FHC foi a de criar condições para um mercado com o mínimo de interferência do Estado. O Lula, por outro lado, deu continuidade à austeridade da política econômica do FHC, mas as ações em que mais investe são na burocratização do Estado e nas políticas sociais, como o Bolsa Família e outros.

É claro, há bons políticos e maus políticos dos dois lados, o que não significa que a diferença entre as ideologias terminou.

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O Grande Homem em Freud

23 / Maio / 2009 por Augusto Galery

Há três textos onde S. Freud tenta analisar o líder de massas - ou o grande homem, como se refere nos textos: Totem e Tabu (1913); Psicologia das massas e análise do ego (1921) e Moisés e o monoteísmo (1939). Podemos perceber, nesses três textos, diferentes relações entre o líder e as massas: No texto de 1913, o chefe se iguala a um pai tirano, que subjuga os demais e concentra o poder, na forma da palavra e da sexualidade; no texto de 1921, percebemos um líder “hipnotizador”, cujo olhar é capaz de colocá-lo na posição de ideal do ego, ou seja, do ser que encarna os desejos do grupo. No último texto, aparece o líder sedutor, que não é escolhido pela massa mas, ao contrário, a escolhe e seduz.

O que é interessante notar é que Freud, no texto de 1939, dá a entender que esses não são líderes de tipos diferentes. São momentos diferentes da liderança. Isso significa que o líder sedutor, que hipnotiza a massa e torna-se o porta-voz de seus ideais sempre terminará como o líder tirano, cujo destino é ser morto pela mão dos liderados.

A pergunta que fica no ar é: existe um modo de não entrar nesse ciclo idealizado e que terminará no assassinato (mesmo que simbólico) do grande homem e na culpa subsequente que carregará a sociedade?

Jacqueline Barus-Michel, no texto A democracia ou a sociedade sem pai, afirma que sim: a democracia seria essa forma de exercício político que prescinde do pai que se tornará tirano. E a democracia é assegurada pela transmissão entre gerações do conceito de igualdade e liberdade e, também, da herança de culpa desse assassinato do pai que, para Freud, inaugura a civilização.

Mas o equilíbrio parece tênue, não? Um pequeno fio, como uma crise ou um líder extremamente sedutor parecem ter o poder de desequilibrar a democracia, como mostram os exemplos históricos, do qual o mais traumático, provavelmente, é o de Adolf Hitler.

Parece oportuno estudar a questão, em tempos de crise, de Hugo Chaves e da discussão sobre o terceiro mandato do Lula.

Bibliografia:

Freud, Sigmund. Totem e tabu; Psicologia das massas e análise do eu; Moisés e o monoteísmo. Edição eletrônica das obras completas. Editora Imago.

Barus-Michel. A democracia ou a sociedade sem pai. in Araújo, José Newton A. et al. Figura paterna e ordem social. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.

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Pelegos psíquicos?

15 / Maio / 2009 por Augusto Galery

Aconteceu numa oficina que estávamos dando para um sindicato paulista, sobre os impactos do gerenciamento do trabalho na saúde. O relato que parecia mais incomodar os participantes poderia ser resumido assim:

Cada vez que um diretor ia a um dos locais de trabalho, era interpelado violentamente por trabalhadores que exigiam mudanças, providências ou posicionamentos do sindicato. O representante do sindicato, se sentindo pressionado, buscava reagir à agressividade dos trabalhadores, dando respostas sobre a atuação do órgão quanto àquelas demandas e, por fim, convidava os trabalhadores queixosos para reuniões (sindicais ou com os chefes) para tentar resolver o problema. Mas nenhum aparecia.

Sugerimos, então, a hipótese de que os diretores sindicais eram visto, pelos trabalhadores, como alguém em quem se podia “descontar” a raiva que sentiam das condições de trabalho, sem serem punidos por isso.

Lembramos que a principal função da regulamentação dos sindicatos no Brasil foi transformá-los em “pelegos”, em referência à manta que fica entre o cavalo e a sela, para ‘amaciar’ as pancadas recebidas.

Propomos, então, que esse sentido pode não ser apenas político, mas também psicológico: o sindicato apareceria como a possibilidade de extravasar a raiva que, de outra forma, iria para a gestão. Dessa forma, o sindicato, apesar de todo o seu esforço de mobilização, estaria atuando como um “pano quente” quanto à participação política. Toda a potência transformadora da raiva, ao invés de canalizada para a mudança, estaria se esvaindo através das reclamações que são feitas aos diretores.

Para o grupo, fez sentido…

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Gerenciamento de pessoas

3 / Maio / 2009 por Augusto Galery

Uma das questões que mais confundem meus alunos, na Administração, é a questão da liderança. Na minha percepção, isso acontece porque a teoria administrativa tem uma função muito clara - a de gerenciar as pessoas -, mas percebe que tal gerenciamento só é possível a partir de uma visão menos pragmática e mais ‘humanizada’.

Assim, começamos a ver livros distinguindo o ‘líder’ do ‘chefe’ ou do ‘gerente’. Que diferença é essa? Em termos de funcionalidade, nenhuma: tanto um quanto os outros têm com principal papel fazer com que as pessoas trabalhem com a maior produtividade, no menor tempo e com o menor custo.

A questão é que, desde Elton Mayo, os administradores perceberam que, se a prática é essa, o discurso deve ser diferente: macio, sedutor, emotivo. Mas, obviamente, uma teoria assim teria que ser disfarçada por uma ideologia. Daí a necessidade de se empregar o termo liderança e diferenciá-lo dos termos anteriores, vinculadas a uma pecha negativa, do trabalho como sofrimento…

Portanto, deixo claro minha opinião: não há teoria de liderança na administração. Há apenas teorias de gerenciamento de pessoas.

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Redução da jornada de trabalho e saúde

5 / Março / 2009 por Augusto Galery

Antes de mais nada, é bom deixar claro que sou a favor da redução da jornada de trabalho, principalmente se realizada nos termos do ‘ócio criativo’ de De Masi. No entanto, o que foi vitória de algumas classes começa a se voltar contra o próprio trabalhador.

Em primeiro lugar, a eficácia da redução da jornada de trabalho para evitar as  LER/Dort precisa ser melhor estudada. O site do Sindicato dos Bancários - classe que, já há bastante tempo, tem a jornada reduzida - de São Paulo, por exemplo, afirma, em notícia veiculada em 27/01/2009 (leia aqui), que “as LER/Dort são as [doenças] que mais atingem os bancários e são responsáveis por longos afastamentos do trabalho para tratamento médico.”

Em um depoimento que tomei para um artigo que deve ser publicado, em breve, pela Fundacentro, uma bancária deixou claro que a redução se tornou uma estratégia de pressão das gerências, que querem que o trabalho, antes feito em 8 horas, passe a ser feito em 6, gerando uma aceleração (causa de LER/Dort) e o aumento do estresse (que, de acordo com a mesma notícia citada acima, aumentou 72% de 2006 para 2007). É claro que seria necessário uma pesquisa mais profunda para entender a relação entre a jornada de trabalho, as formas de gestão e o adoecimento dos trabalhadores, mas fica o indício.

Além disso, o que se observa, em alguns setores que obtiveram a diminuição da jornada para seis horas, em conjunto com a baixa remuneração, é o aumento da dupla jornada. Ou seja, ao invés de trabalhar 8 horas em uma empresa, o trabalhador passa a ter uma jornada de 12 horas, em duas empresas diferentes. E tal fato certamente não contribui para a saúde do trabalhador.

Essa questão é de especial relevância agora que os empresários (em particular a Fiesp) começaram a defender a diminuição da jornada de trabalho - e consequente redução salarial - como estratégia para enfrentamento da crise financeira atual.

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Entrevista do Prof. Jáder Sampaio sobre Pressão no Trabalho

26 / Fevereiro / 2009 por Augusto Galery

O caro amigo, Prof. Jáder Sampaio, da UFMG, deu uma breve entrevista sobre as consequências do aumento de pressão sobre o trabalho. Apesar dele ser mais otimista do que eu a respeito do futuro, vale a pena ouvi-lo, para refletir sobre o assunto.

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Educação e ideologia

23 / Fevereiro / 2009 por Augusto Galery

As escolas do MST no Rio Grande do Sul foram extintas, de acordo com notícia vinculada na Folha de São Paulo (clique aqui para ler).  A justificativa para o fato, de acordo com o procurador de Justiça Gilberto Thums, autor do termo de ajustamento que extinguiu as escolas, foi o seguinte:

Não é educação, é uma farsa na qual as crianças estão condenadas a seguir a ideologia dos líderes do MST. É um processo de alienação que não pode ser bancado pelo contribuinte“.

Talvez fosse interessante vasculhar um pouco esses dois termos: ‘ideologia’ e ‘alienação’, usados pelo procurador. Não teremos espaço, aqui, para tanto, mas ficamos com uma dúvida: qual educação, nos moldes atuais, não é ideológica? Qual delas não é alienante?

Uma grande parte de nossas escola é ligada a igrejas e tem aulas de religião. Isso também não é interferir ideologicamente no conteúdo dado aos alunos? Será que as escolas católicas serão, então, extintas pelo senhor Thums?

Além disso, muito se tem discutido a respeito de como as estruturas escolares colaboram para a falta de participação política da população. Recorro ao conceito de Hofstede de ‘distância do poder’: As escolas não vem sendo um dos lugares onde mais aprendemos a obedecer sem questionar? Onde o poder do ‘mestre’ é inquestionável e só resta às crianças obedecê-lo? Isso não contribui para a alienação, num sentido lato?

Talvez o que o procurador devesse dizer que as escolas do MST não condizem com a ideologia que ele gostaria que as crianças tivessem, para manter a sociedade no atual status quo. Mas aí, provavelmente, ele não teria tanto apoio…

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A quem serve a crise?

12 / Fevereiro / 2009 por Augusto Galery

Vão me chamar de ‘paranóico’, mas a ideia aqui é apenas tentar fazer uma reflexão sobre se a presente crise econômica que o mundo passa é uma crise do capitalismo - levando o mundo, assim, para o socialismo, de acordo com a tese de Marx e Engels, no Manifesto Comunista - ou se a atual crise servirá para fortalecer o capitalismo.

Gostaria de citar a análise de Singer do Manifesto Comunista, para exemplificar a questão:

“O capitalismo muda sempre, em consequência de suas próprias contradições, que se manifestam concretamente na luta de classes, sem deixar de ser, no entanto, ele mesmo. Identidade que se renova sem cessar, à medida que promove o avanço das forças produtivas de forma acelerada, o capitalismo também não pode deixar de transformar as demandas que o superam, as exigências das classes sociais que nele são exploradas e oprimidas” (1980, p. 16-17).

Essa frase encerra duas importantes lições: 1) que o que levaria o capitalismo a um possível socialismo são as demandas das classes exploradas, expostas através de movimentos sociais (e não necessariamente através de uma revolução armada). Ou seja, o fato dos trabalhadores buscarem melhorias na qualidade de vida, com a diminuição da exploração, e uma participação política maior levaria o capitalismo, gradativamente, a avançar em direção ao socialismo.

2) Que o capitalismo se renova, se transfigura - tanto no discurso quanto nos atos - para ‘atrasar’ essa evolução e manter o status quo atual. Ou seja, o capitalismo busca formas de disciplinar as classes exploradas, seja através da sedução dos discursos da Gestão de Pessoas, seja através do autoritarismo puro e/ou manipulador. Nesse contexto, os movimentos sociais são grandes alvos de atenção.

Assim, temos duas forças que se chocam: os movimentos sociais que buscam diminuir a exploração e a mutabilidade capitalista que busca esvaziar tais movimentos.

Agora pensemos na atual crise: A qual dessas duas forças ela tem servido? Em primeiro lugar, os governos investem bilhões de dólares para manter o sistema financeiro atual. Em segundo lugar, incentiva-se o consumo de qualquer forma, valorizando-se o ‘comprar’ e o ‘ter’. Valoriza-se, portanto, a resposta individualista e econômica (afinal, quem ira ganhar mais com o aumento das vendas?) à crise. Em terceiro lugar, as empresas ameaçam demitir em massa, a não ser que os direitos dos trabalhadores sejam diminuídos ou extintos (acompanhem as tentativas de negociação da Fiesp sobre a diminuição da jornada diária de trabalho para ver um bom exemplo). A ameaça do desemprego, parece-me, é uma das armas mais importantes de esvaziamento das demandas trabalhistas. Diversos sindicatos já aderiram ao discurso de que é melhor perder os direitos do que perder o emprego. Isso, num momento em que o terceiro setor e a opinião pública, de forma global, forçavam as empresas a aumentarem a ética, o que vinha levando, como consequência, a um aumento dos direitos dos trabalhadores…

Concluo, daí, que a presente crise - e, principalmente, a forma com que os países como os Estados Unidos, a França e o Brasil tem lidado com ela - levara, mais provavelmente, a um retrocesso do que a um avanço em direção ao socialismo…

Referências:

SINGER, P. O que é o socialismo, hoje. Petrópolis: Vozes, 1980.

MARX, K; ENGELS, F. Manifesto do Partido Comunista. Lisboa: Avante, 1997 (1848). Disponível em http://www.marxists.org/portugues/marx/1848/ManifestoDoPartidoComunista/index.htm.

ATUALIZANDO:

Na Folha de São Paulo do dia 8 de março, (Munda, p. A19) há uma materia com o filósofo marxista esloveno Slavoj Zizek. A matéria é bastante superficial, mas há algumas dicas de que o pensamento dele vai ao encontro do meu: a atual crise, no curto prazo, pelo menos, fortalecerá o capitalismo, reformando-o, mas também levará a novas formas de apartheid e estados de emergência. Zizek parece acreditar que os desafios que realmente podem afetar o capitalismo - por este ser incapaz de resolvê-los - serão “a catástrofe ambiental e os abusos da tecnologia de informação, os direitos de propriedade intelectual e a biogenética”…

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Saramago e Marx

28 / Outubro / 2008 por Augusto Galery

 O escritor José Saramago fez uma colocação brilhante sobre a crise financeira, de acordo com reportagem veiculada pela Folha Online (clique aqui para ler o artigo):

“Onde estava todo esse dinheiro? Estava muito bem guardado. Logo apareceu, de repente, para salvar o quê? Vidas? Não, os bancos”, afirmou o autor.

E esse deveria ser nosso grande incômodo com tudo isso…

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L.E.R.

30 / Setembro / 2008 por Augusto Galery

Acaba de sair uma reportagem na Folha Equilíbrio Online - clique aqui para ver - sobre as lesões por esforço repetitivo. Achei que, a essa altura do campeonato, a organização do trabalho já fosse oficialmente considerada como causa das lesões mas, ao que parece, o esforço de caracterizar a L.E.R. como um problema individual - adquiro L.E.R. porque minha postura está errada e eu não gosto de meu trabalho - e psicológica - citando a reportagem: ” ‘Quando a pessoa não gosta do trabalho que faz, pode ser que o corpo manifeste esse descontentamento, que a princípio é uma questão psíquica’, conta o médico Ricardo Nahas” - continua firme e forte.

O papel da organização do trabalho no desenvolvimento das L.E.R. já foi bem documentado em livros como:

LIMA, M. Elizabeth A. ; ARAÚJO, José Newton Garcia de ; LIMA, F. P. A. ; NEVES, M. A. . L.E.R. - Dimensões ergonômicas e psicossociais. 1. ed. Belo Horizonte: HEALTH, 1997. 361 p.

No livro, o papel da aceleração do ritmo de trabalho, a pressão por produção e as condições ergonômicas são avaliadas através de pesquisas, demonstrando o papel da organização do trabalho como um dos principais fatores que desencadeiam as lesões por esforço repetitivo.

No entanto, como é comum acontecer, as abordagens individualizantes são mais divulgadas nas mídias de massa e ‘aceitas’ pelas organizações, que se eximem assim da responsabilidade sobre os fatos. O adoecer fica caracterizado como uma característica pessoal, intrínseca ao trabalhador, e não como resultante da relação entre o trabalhador e a organização, relação essa conflitante, na maioria das vezes.

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Sedução e segregação

12 / Setembro / 2008 por Augusto Galery

Há algumas semanas, a revista Época publicou o resultado da pesquisa ‘As 100 melhores empresas para se trabalhar’ (Revista Época, São Paulo, n. 536, 25/08/08). Em 15ª colocação, aparece a empresa Promon. Cito algumas partes da reportagem sobre essa empresa (Idem, p. 98):

“Maria de Lourdes Marcos trabalha há 28 anos na Promon, empresa de engenharia com sede em São Paulo. Luiz Ernesto Gemignani completou 30 anos de casa. Ela é copeira, ele, o presidente. Embora exista formalmente uma grande distância hierárquica entre os dois, no dia-a-dia eles se tratam apenas como bons e velhos colegas de trabalho. Assim que Lourdes entra na sala da presidência para servir água e café, o executivo se apressa a apresentá-la a seu convidado. ‘Essa é a Lourdes, que está com a gente há quase 30 anos. Ela é acionista da empresa’ […] Desinibida, Lourdes conta que sente orgulho de fazer parte do time da Promon […] Como 100% das ações da Promon estão nas mãos dos funcionários, são eles que escolhem quem comanda a empresa. ‘Eu já elegi três presidentes e acho que tenho acertado na escolha’, diz Lourdes”.

Alguma coisa me incomodava na reportagem, e eu não conseguia perceber o que. Foi minha esposa que matou a charada: 28 anos anos de Promon. Vinte e oito anos.

E a Lourdes ainda é copeira.

Somos só nós que achamos isso muito estranho?

Mais à frente, a reportagem afirma que há uma lista de ‘estrelas’, pessoas definidas como ‘talentos acima da média’ que a Promon “não quer perder para nenhum concorrente” (p. 100). Uma vez por mês essas ‘estrelas’ se reunem com o presidente e discutem, entre outros assuntos, as “chances de desenvolvimento profissional”…

Lembrou-me uma turma de pós-graduação em Gestão de Recursos Humanos para a qual eu dei aula. Ao apresentar a pirâmide de necessidades de Maslow, a turma concluiu que realização não era para todos: a maioria dos trabalhadores se contentava com suprir a necessidade de segurança. Era esse o objetivo de vida dos trabalhadores de chão de fábrica.

Quando eu expus que talvez haja mais por trás do problema do que a falta de ambição dos trabalhadores, a turma me respondeu com o mito do self-made man: se eles realmente quisessem chegar ao topo, conseguiriam.

Fico pensando em como é bem-feito o discurso hegemônico do poder instituído, não? Seduz, de um lado, segrega, de outro e, acima de tudo, define os papéis de cada um. ‘Um lugar para cada um e cada um em seu lugar’…

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