Arquivo de Posts
Organizações psicopatas
Hoje, propus uma discussão com meus alunos da disciplina Ética e Responsabilidade Social (do curso de pós Psicologia Organizacional e do Trabalho, no Mackenzie) em cima do filme A Corporação (mais especificamente, das partes intituladas “Relatos de Caso”; “Patologia do Comércio” e “Obrigações Monstruosas”).
Nas duas primeiras partes, há um esforço dos realizadores do filme para demonstrar que os comportamentos das corporações se encaixam nas diretrizes diagnósticas de psicopatia propostas pela CID-10.
Na terceira parte, no entanto, o filme demonstra que as pessoas que dirigem essas corporações são tão humanas - preocupadas com o meio ambiente, com os regimes totalitários e com seus filhos - como qualquer outra pessoa.
Minha pergunta para a turma, então, foi a seguinte: como é possível que um grupo de pessoas inseridas na lei social - ou seja, que não são, isoladamente, psicopatas - possam, ao criar as corporações, torná-las psicopatas (no sentido de se achar não-submetidas às leis sociais e à etica)? Será que essas instituições assumem uma personalidade diferente das pessoas que a compõe? Uma espécie de “psiquismo institucional autônomo” de seus membros?
Eu, particularmente, acho difícil acreditar nessa hipótese… Na minha opinião, é necessário lembrar que o homem construiu instituições que lhe servem às necessidades psíquicas e as empresas não fogem a essa regra. Inventamos instituições específicas para lidar com nosso medo do desconhecido (e com nosso sentimento oceânico), como as religiões. Inventamos instituições para dar vazão e, ao mesmo tempo, manter contida nossa barbárie, como os estádios de futebol.
Parece-me que também inventamos uma instituição cujo intuito é dar vazão aos impulsos psicopatas que todos temos - é necessário lembrar, dentro da hipótese freudiana, que todas as crianças são perversas, no sentido de não ter a lei introjetada, e que a passagem pelo Édipo não nos faz deixar de ter tais impulsos, mas apenas os coloca sob controle, através de um árduo esforço e bastante sofrimento.
E não é exatamente a pura racionalidade utilitarista, desprovida de emoção, a justificativa usada tanto pelas corporações quanto pelos psicopatas para tomar suas decisões?


