O número 21, deste ano, da revista Teoria e Debate traz uma reportagem de Gustavo Venturini sobre uma pesquisa das Fundações Perseu Abramo e Rosa Luxemburg sobre a intolerância à diversidade sexual.
Se, por um lado, toda a reportagem é interessante na questão da diversidade sexual, me chamou a atenção, particularmente, as respostas estimuladas em relação a determinados grupos de pessoas, feitas para se comparar o preconceito entre esses grupos e a população-alvo da pesquisa (o público LGBT - Lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, de acordo com a terminologia usada). A pergunta era algo como ‘como você se sente ao encontrar desconhecidos de diferentes grupos de pessoas’. Um gráfico da revista mostra o resultado para os diversos grupos:

De acordo com a reportagem, “as identidades sexuais so perderam em taxa de intolerância para dois líderes incontestes: ateus […] e usuários de droga […]” (Venturini, p. 23).
Se toda a pesquisa tem grande importância no contexto da diversidade sexual, chama a atenção, para mim, nesse resultado, duas características que parecem deixar claro o caráter religioso de nossa sociedade. Em primeiro lugar, o fato dos ateus estarem em primeiro lugar na lista, junto com o contraste de que o grupo que dá mais ’satisfação/alegria’ ao ser encontrado é exatamente o de ‘pessoas religiosas’ (líder também inconteste, como podemos perceber pelo gráfico). Esse caráter religioso parece estar claramente vinculado, por exemplo, ao preconceitos contra o público LGBT. Por exemplo, 92% dos entrevistados concordam, em algum grau, com a frase “Deus fez o homem e a mulher com sexos diferentes para que cumpram seu papel e tenham filhos” (84% dos entrevistados concorda totalmente com essa frase, 8% concordam em parte).
A segunda questão que me chama a atenção é que, ao meu ver, as três categorias que sofrem maior aversão - ateus, usuários de drogas e LGBT - estão ligados, pelo menos na visão popular, a uma escolha. Venturini percebe a questão em relação ao público LGBT e coloca a hipótese de que a visão da identidade sexual como opção é um dos fatores que aumenta o preconceito, quando contrastado, por exemplo, com questões étnicas ou etárias, vistas como ‘naturais’ , sem escolha. Parece-me que essa hipótese da escolha se demonstra também nos grupos dos usuários de droga e dos ateus.
E o conceito de opção não é uma questão religiosa, para a população? Não tem a ver com o livre-arbítrio, que nos foi ‘dado’ por Deus, para que tivéssemos que ‘optar’ por aceitá-lo e a todas as suas condições? Assim, ter o livre-arbítrio e utilizá-lo para ir contra as ordens de Deus parece ser visto como o pior crime que um ser humano pode cometer, merecendo, assim, quem o pratica, a repulsa e a antipatia do resto da sociedade.
Bibliografia:
VENTURINI, Gustavo. Intolerância à diversidade sexual. Revista Teoria e Debate. São Paulo, ano 21, n. 78, jul/ago 2008, p. 20-23.