Vão me chamar de ‘paranóico’, mas a ideia aqui é apenas tentar fazer uma reflexão sobre se a presente crise econômica que o mundo passa é uma crise do capitalismo - levando o mundo, assim, para o socialismo, de acordo com a tese de Marx e Engels, no Manifesto Comunista - ou se a atual crise servirá para fortalecer o capitalismo.
Gostaria de citar a análise de Singer do Manifesto Comunista, para exemplificar a questão:
“O capitalismo muda sempre, em consequência de suas próprias contradições, que se manifestam concretamente na luta de classes, sem deixar de ser, no entanto, ele mesmo. Identidade que se renova sem cessar, à medida que promove o avanço das forças produtivas de forma acelerada, o capitalismo também não pode deixar de transformar as demandas que o superam, as exigências das classes sociais que nele são exploradas e oprimidas” (1980, p. 16-17).
Essa frase encerra duas importantes lições: 1) que o que levaria o capitalismo a um possível socialismo são as demandas das classes exploradas, expostas através de movimentos sociais (e não necessariamente através de uma revolução armada). Ou seja, o fato dos trabalhadores buscarem melhorias na qualidade de vida, com a diminuição da exploração, e uma participação política maior levaria o capitalismo, gradativamente, a avançar em direção ao socialismo.
2) Que o capitalismo se renova, se transfigura - tanto no discurso quanto nos atos - para ‘atrasar’ essa evolução e manter o status quo atual. Ou seja, o capitalismo busca formas de disciplinar as classes exploradas, seja através da sedução dos discursos da Gestão de Pessoas, seja através do autoritarismo puro e/ou manipulador. Nesse contexto, os movimentos sociais são grandes alvos de atenção.
Assim, temos duas forças que se chocam: os movimentos sociais que buscam diminuir a exploração e a mutabilidade capitalista que busca esvaziar tais movimentos.
Agora pensemos na atual crise: A qual dessas duas forças ela tem servido? Em primeiro lugar, os governos investem bilhões de dólares para manter o sistema financeiro atual. Em segundo lugar, incentiva-se o consumo de qualquer forma, valorizando-se o ‘comprar’ e o ‘ter’. Valoriza-se, portanto, a resposta individualista e econômica (afinal, quem ira ganhar mais com o aumento das vendas?) à crise. Em terceiro lugar, as empresas ameaçam demitir em massa, a não ser que os direitos dos trabalhadores sejam diminuídos ou extintos (acompanhem as tentativas de negociação da Fiesp sobre a diminuição da jornada diária de trabalho para ver um bom exemplo). A ameaça do desemprego, parece-me, é uma das armas mais importantes de esvaziamento das demandas trabalhistas. Diversos sindicatos já aderiram ao discurso de que é melhor perder os direitos do que perder o emprego. Isso, num momento em que o terceiro setor e a opinião pública, de forma global, forçavam as empresas a aumentarem a ética, o que vinha levando, como consequência, a um aumento dos direitos dos trabalhadores…
Concluo, daí, que a presente crise - e, principalmente, a forma com que os países como os Estados Unidos, a França e o Brasil tem lidado com ela - levara, mais provavelmente, a um retrocesso do que a um avanço em direção ao socialismo…
Referências:
SINGER, P. O que é o socialismo, hoje. Petrópolis: Vozes, 1980.
MARX, K; ENGELS, F. Manifesto do Partido Comunista. Lisboa: Avante, 1997 (1848). Disponível em http://www.marxists.org/portugues/marx/1848/ManifestoDoPartidoComunista/index.htm.
ATUALIZANDO:
Na Folha de São Paulo do dia 8 de março, (Munda, p. A19) há uma materia com o filósofo marxista esloveno Slavoj Zizek. A matéria é bastante superficial, mas há algumas dicas de que o pensamento dele vai ao encontro do meu: a atual crise, no curto prazo, pelo menos, fortalecerá o capitalismo, reformando-o, mas também levará a novas formas de apartheid e estados de emergência. Zizek parece acreditar que os desafios que realmente podem afetar o capitalismo - por este ser incapaz de resolvê-los - serão “a catástrofe ambiental e os abusos da tecnologia de informação, os direitos de propriedade intelectual e a biogenética”…