João Augusto, 55 anos, é um bancário que trabalhou num mesmo banco, durante 32 anos. No fim da década de 1990, o banco foi privatizado, mas apesar da crise instalada e das demissões ocorridas logo depois (especialmente dos bancários adoecidos), continuou trabalhando na mesma empresa. Em reunião de integração dos novos funcionários, João era um dos exemplos de competência, organização e dedicação ao trabalho, ou seja “tinha o perfil que a empresa precisava”. Foi, então, que desejou se tornar gerente. Trabalhava 10 horas por dia, fez faculdade e pós-graduação em administração de empresas. Pouca atenção dava aos filhos e a esposa, mas, segundo ele “O dia que virei gerente foi a realização de um sonho…eu explodia de alegria”. Nas festas familiares e nas reuniões sociais enchia o peito para falar do seu trabalho, de sua empresa, das inovações, dos novos produtos. Seus colegas o chamavam de chato, segundo João:”Por que eu só sabia falar do trabalho”.
Anos depois, o banco passou por outro processo de “downsizing”, um período de reajustes e grandes tensões. Foi demitido: “meu mundo caiu”, não sabia como contar para família, chorou e ficou indignado: “só faltavam dois anos para a aposentadoria”. Esteve até no sindicato, pra buscar os poucos direitos. Recorreu no Ministério do Trabalho do “direito do seguro desemprego”, por que as prestações não paravam de chegar: carro, casa, escola dos filhos. Ainda perplexo, organizou um curriculum, fez contatos com outros gerentes de banco e abriu até uma firma própria: “virei pessoa jurídica, um empreendedor”.
Os dias iam se passando e teve que pegar empréstimo, no mesmo banco. Nenhuma solução e João não entendia: “eu era tão competente”. Os meses iam se passando e todos lhe diziam: “Eles só querem jovens”. No desespero foi no INSS e consegui negociar um salário de aposentadoria, disse: “melhor que nada”. Vendeu o carro e aprendeu a andar de ônibus. Colocou os filhos em escola pública e pensava: “Uma vida dedicada ao trabalho e nem pra pagar uma boa educação para os meus filhos eu prestava”. Constantemente irritado, rompeu com o casamento de trinta anos e foi morar com a mãe. De tanto andar atrás de trabalho, qualquer que fosse, aprendeu a parar no bar e beber cachaça: “pra aguentar o tranco”.
Dias atrás começou a sentir dores no peito e, forçado pelos filhos, procurou seu cardiologista de anos, mas o médico não o atendeu, já que não tinha “plano” e indicou o SUS. Depois de muito procurar, foi na tal Unidade de Saúde do bairro. Tomou um gole de cachaça e chegou na fila às 7h, mas só conseguiu marcar o clínico, pro encaminhamento, no fim do mês. Se sentiu humilhado.
No caminho de volta uma notícia estampada no jornal lhe salta os olhos, “seu” banco foi o mais lucrativo de 2005. Foi então que descobriu: “o meu banco não era meu, nunca foi” e encolheu.