Uma das coisas que faço na vida é trabalhar com projetos que visem uma sociedade inclusiva. A parte difícil é convencer as lideranças (políticas, privadas etc.) a aceitar a inclusão como um novo paradigma e, assim, conseguir evitar iniciativas que, mesmo revestidas de boas intenções, mantenham a exclusão e o assistencialismo vazio.
Apesar do dado tão impressionante que nos compara a macacos (e, nesse sentido, um “golpe ao narcisismo humano”, como colocaria Freud), algo me incomodou durante o vídeo. Após pensar um pouco, percebi que eram as hipóteses da qual partia a pesquisadora:
1. Construímos mal nossos ambientes ou
2. Nossas mentes são mal construídas.
A partir daí, ela demonstra como nossa mente -de humanos e de macacos - recorre a formas não racionais para tomar suas decisões. No entanto, é possível - a partir de outra ideologia - fazer uma terceira hipótese, que ela não contempla:
3. Não somos -e não deveríamos ser - seres racionais.
É fácil perceber, no vídeo da pesquisadora, uma defesa ideológica ao racionalismo e à tecnicidade, que hora nenhuma são questionados. A solução que ela dá, no fim do filme: precisamos admitir que não tomamos decisões racionais para, a partir daí, construir uma “lente de contato” que nos permitirá ver a “realidade” racional.
Para minha sorte, lendo um texto de M. I. A. Fernandes, publicada na Revista USP, encontrei uma frase que traduziu exatamente meu incômodo. Citando Souza Santos, a autora afirma um dos problemas das sociedades contemporâneas é:
“[…A] hegemonia que a racionalidade científica vem assumindo e consiste ‘na transformação dos problemas éticos e políticos em problemas técnicos’ ” (p. 93).
Dessa forma, tornamos nossa economia globalizada, absolutamente predatória, num problema evolucionário biológico e individualizado, cuja solução é “cada um de vocês pensará sobre suas próprias limitações […] para reconhecê-las, aceitá-las e usar o mundo do design para superá-las” (retirado do vídeo). Mais uma vez, o texto de Fernandes me socorre:
“Os efeitos desse deslocamento [do público para o privado] fazem com que todas as questões a serem discutidas no âmbito do Estado passem a ser referidas somente a uma esfera privada” (p. 92). Não há mais política, apenas a necessidade de indivíduos que reconhecem suas limitações biológicas…
Recorro, uma última vez, ao texto de Fernandes, para concluir esse texto, com outra possibilidade que não a apresentada pela pesquisadora:
“A luta deve nos impor um exercício contínuo de construção e desconstrução de nosso fazer. A luta deve ser, portanto, contra um modelo de desenvolvimento que transformou a subjetividade num processo de individuação burocrática e subordinou a vida às exigências de uma razão tecnológica que converte o sujeito em objeto de si próprio (p. 98).
Bibliografia:
FERNANDES, Maria Inês Assumpção. Saúde Mental: a clausura de um conceito. Revista USP. São Paulo, n. 43, p. 90-99, setembro/novembro 1999.
A UFSCAR está promovendo o IV Congresso Brasileiro de Educação Especial / VI Encontro Nacional dos Pesquisadores da Educação Especial. Apesar de eu achar um pouco estranha a nomenclatura “educação especial” - estou mais acostumado com “educação inclusiva” - é um congresso com uma atualidade imensa, ao meu ver.
O CRP está promovendo um ciclo de debates sobre o trabalho, utilizando diversos filmes como material para os debates. A programação completa pode ser vista aqui: http://www.crpsp.org.br/videoclube/.
Chamo a atenção paraa mesa de 7 de maio, sobre o filme Peões, que contará com a participação de nossa colaboradora Ana Paula Lopes dos Santos como debatedora.